Payne suspeito de pedofilia

19 Julho 2008 – 22h00

Depoimentos: Médicos amigos dos McCann falaram à polícia inglesa

Payne suspeito de pedofilia

Dave Payne, um dos amigos dos McCann que se encontravam de férias no Algarve a 3 de Maio do ano passado, quando Madeleine desapareceu, foi suspeito de comportamentos pedófilos.

As acusações foram lançadas por um casal de amigos que passaram férias com parte do grupo noVerão de 2005 – também eles médicos ingleses. Doze dias depois de a menina britânica desaparecer, Katherina e Arul não conseguiam mais guardar um segredo que durante dois anos os incomodara e foram à polícia prestardeclarações.Revelaram duas conversas de Dave com Gerry, em que ambos mostravam comportamentos suspeitos e que indiciavam sexo com menores.

Segundo o CMapurou, os depoimentos foram prestados a 16 de Maio. No entanto, só deram entrada no processo em Janeiro de 2008 e fazem parte já do 13º volume dos autos. Nessa altura já Kate e Gerry eram arguidos, já as cartas rogatórias tinham sido emitidas e os ingleses, incluindo Dave, se mostravam relutantes em regressar a Portugal.

MEXER NO MAMILO

Katherina prestou um depoimento de oito páginas. Relatou umas férias em Maiorca com vários ingleses, em que estavam os McCann e os Payne. Doisincidentesdeixaram-lhe grandes dúvidas sobre o comportamento dos amigos e levaram-na a criar suspeitas nunca confirmadas.

O primeiro aconteceu numa noite em que Gerry e Dave falavam sobre Maddie. Katherina não sabe o que diziam mas recorda-se de que Dave chupava os dedos, empurrando-os para dentro e para fora da boca, enquanto com a outra mão faziaumcírculoà volta do mamilo, com um movimento giratório por cima da roupa. “Tal foi feito com uma maneira provocante”, recorda Katherina, que diz ter ficado com isso gravado na memória.

Dias depois a cena repetiu-se. A médica voltou a ver Dave fazer os mesmos gestos, quando estaria a falar da própria filha. Assustada, Katherina nada contou sobre o incidente. Mas assumiu cuidados especiais, pedindo ao marido que nunca deixasse o médico aproximar-se da casa de banho quando a filha estava a tomar banho.

Arul foi também à polícia relatar a mesma história. O companheiro de Katherina confirmou os gestos feitos por Dave na conversa com Gerry mas assegurou não se ter apercebido de que falavam de Maddie. Achou, porém, o comportamento de extremo mau gosto, embora não o visse repetir o gesto.

O incidente acabou por ficar esquecido na sua memória e só o de-saparecimento de Madeleine, que com eles também passara férias em Maiorca, o reavivou.

No depoimento prestado, Katherina foi ainda mais longe e disse ter associado os gestos a quem tem gosto de visualizar pornografia infantil. “Lembro-me de pensar se ele olharia para as meninas de modo diferente”, concluiu.

KATE ACUSADA DE CONDICIONAR O CASO

Um relatório intercalar da Polícia Judiciária,elaboradoimediatamente antes de Kate e Gerry serem constituídos arguidos, acusa os pais de Madeleine de terem condicionado a investigação. O documento é assinado por um inspector e foi dirigido a Gonçalo Amaral, que então dirigia o processo.

O investigador assegura então que a informação inicialmente recolhida foi trabalhada pelo grupo de forma a sustentar a tese de rapto. Garante que todos mentiram para se proteger e sugere mesmo que alguns pudessem estar a encobrir o crime.

O testemunho de Janne Turner, que garantiu ter visto um homem a atravessar a rua com uma criança ao colo, é também posto em causa. Disse o polícia que Janne estavaaescassos dois/três metros de Gerry mas que aquele não viu o homem. E que, ao afirmar que ele se dirigia para casa de Murat, acabou por orientar a investigação num sentido errado, o que levou a uma perda desnecessária de tempo.

O mesmo relatório deixa ainda visíveis outras contradições nos depoimentos dos ingleses. Kate e Gerry dizem que foram buscar os filhos ao infantário às 17h30, mas enquanto a primeira garante que foram correr meia hora à praia e só depois voltaram ao apartamento o marido diz que tinham ido jogar ténis nesse período.

Depois disso, já por volta das 20h00, um dos elementos do grupo teria ido ao espaço arrendado pelo casal. Kate diz que ele só esteve 30 segundos na casa e que saiu. Gerry fala de meia hora. O polícia lembra que a diferença de tempo é a necessária entre perguntar se está tudo bem ou avançar caso seja necessário ocultar um crime.

Outra situação estranha para as autoridades foi o facto de Kate, ao ver que Maddie tinha desaparecido, ter ficado dez minutos no apartamento. Só depois pediu ajuda, deixando os gémeos a dormir nos berços enquanto regressava ao restaurante. O polícia que elaborou o relatório pergunta como é possível que uma mãe facilite a guarda dos outros filhos quando é certo que naquela altura já gritava que a sua filha tinha sido raptada.

NÃO VIAM O APARTAMENTO

Outra contradição foi apontada pelo inspector que tinha a cargo o desaparecimento de Maddie. Lembrou o polícia que os McCann garantiram que a sua posição era estratégica no restaurante, de modo a poderem ver o apartamento onde os filhos dormiam. No entanto, segundo vários testemunhos, Kate e Gerry estavam de costas voltadas para o apartamento.

PAIS RECUSAM AJUDA TÉCNICA

Yvone, credenciada pelo governo inglês para trabalhar em situações que envolvam crianças em risco, estava no Algarve quando Maddie desapareceu mas os McCann recusaram a sua ajuda. A especialista contou à PJ, em dois depoimentos prestados com um mês de diferença, que abordou o casal após as primeiras horas e que o comportamento de ambos lhe deixou suspeitas sobre o envolvimento daqueles no desaparecimento.

Também o comportamento de Dave Payne, acusado por uns médicos com quem passara férias em 2005 de ter atitudes que indiciavam práticas pedófilas (ver pág. 4), deixou Yvone intrigada. O amigo dos McCann chamara-os à parte e aconselhara–os a não falar com a técnica.

Yvone achou ainda outro pormenor estranho. O rosto de Dave não lhe era desconhecido, acreditando a técnica que o médico já poderia ter sido inquirido no âmbito de algum caso de abusos sexuais. Tentou recordar-se quando mas acabou por não conseguir situar o momento e as circunstâncias em que o encontrou.

Os dias passaram e Yvone continuou a pensar no assunto. Mandou então uma carta para a polícia inglesa, onde realçava os pormenores de que se apercebera. Designadamente, de que a janela do quarto não tinha sido arrombada, de que não era normal um casal de médicos deixar os filhos sozinhos e que Kate reagira de forma agressiva quando a abordara. Alertou ainda para as estatísticas oficiais, que apontam para que na maioria destes casos há encobrimento das famílias.

AMIGOS DOS TEMPOS DE ESCOLA

Arul e Kate eram amigos do tempo de escola. Conhecem-se há cerca de 20 anos e foi esse o motivo que levou o casal a acompanhar os McCann nas férias a Maiorca. Arul e Katherina não conheciam Fiona e Dave e só uma vez se reencontraram, num jantar que juntou vários casais. Quando Maddie desapareceu do Ocean Club, Katherina voltou a recordar o incidente de Maiorca. E imediatamente tentou ver se Dave também voltara a acompanhar o casal McCann, já que as suspeitas sobre o seu comportamento se mantinham. No depoimento relatado à polícia inglesa, Katherina diz que decidiu depor quando viu as imagens televisivas. Dave estava mesmo no grupo de férias.

PJ ADMITIU SIMULAÇÃO DO CENÁRIO

A chegada dos cães que detectavam odores de cadáver e vestígios de sangue levou a PJ a admitir que alguns pormenores do quarto onde Maddie dormia tivessem sido encenados para sustentar a tese de rapto. Um dos exemplos apontados num dos muitos relatórios feitos pelos investigadores foi o facto de o peluche se encontrar em cima da cama onde Maddie dormia, cama essa parcialmente desfeita. Os animais detectaram odores no brinquedo da criança, mas não assinalaram a sua morte no local. O que levou a PJ a admitir que Maddie tivesse morrido noutra zona da casa, tendo depois o brinquedo sido levado para a cama por ser o local mais provável em caso de rapto. Outros pormenores foram analisados, como o facto de os móveis se encontrarem demasiado arrumados e o sofá estar completamente encostado à parede.

LIVRO DO GONÇALO AMARAM INCÓMODO PARA INGLESES

Uma delegação da justiça britânica partiu ontem para Londres depois de ter tentado em Portimão manter em segredo alguns elementos processuais.

Os ingleses, que, segundo apurou o CM, estarão incomodados com eventuais revelações que o livro do ex-coordenador da PJ de Portimão possa vir a fazer, tentaram requerer ao juiz de instrução o segredo dos relatórios periciais sobre os vestígios de sangue e odor a cadáver recolhidos no apartamento do Ocean Club mas também outras peças processuais.

Ao que o CM apurou, as pretensões da delegação inglesa foram negadas, excepto no caso das identidades de pessoas com condenações ou registos policiais de pedofilia com residência no Algarve ou que tenham passado férias na região à data dos factos.

Os britânicos que estiveram em Portimão foram o polícia Stuart Prior, um dos responsáveis pela ligação com a polícia portuguesa, uma magistrada e um jurista da SOCA, agência britânica especializada na investigação de criminalidade organizada.

Desconhece-se se a deslocação foi feita ao abrigo de alguma carta rogatória ou se foi politicamente negociada entre os governos dos dois países.

“EM DEFESA DO MEU BOM NOME”

O livro de Gonçalo Amaral é escrito em nome de uma defesa da honra. “Senti a necessidade de repor o meu bom nome, que foi enxovalhado na praça pública sem que a instituição a que pertencia há 26 anos, a Polícia Judiciária, tenha permitido que me defendesse ou o fizesse institucionalmente”, declara Gonçalo Amaral num texto de justificação do livro. Para fazer essa defesa, pediu autorização à direcção nacional da PJ mas nunca a obteve. O livro, que vai ser apresentado por Marques Vidal, antigo director da Judiciária, é lançado no próximo dia 24, em sessão marcada para o El Corte Inglés, em Lisboa.

DÚVIDAS NO CASO

IRLANDÊS POR OUVIR

Um irlandês que passava férias na Praia da Luz também foi à polícia inglesa relatar que na noite de 3 de Maio vira Gerry transportar Madeleine ao colo em direcção à praia. Nunca foi ouvido em carta rogatória.

ATRASO NO ENVIO

A diferença entre o tempo em que o depoimento foi obtido e a altura em que foi enviado não está explicada no processo. O CM sabe que as autoridades inglesas também não forneceram qualquer explicação.

INFORMAÇÃO BANCÁRIA

A PJ tentou saber a situação bancária de todos os elementos do grupo, para procurar eventuais motivos para o crime. Todavia, as respostas inglesas foram lacónicas e não ajudaram a investigação.

HISTÓRIAS DE VIDA

FIcaram por conhecer as histórias de vida de Gerry e Kate McCann. A PJ tentou verificar se a mãe de Maddie sofria de depressões mas não recebeu os seus registos clínicos, porque o juiz não o permitiu.

PORMENORES

PISTAS INVESTIGADAS

O relatório final é claro. Todas as pistas foram investigadas, a tese de rapto foi verificada ao pormenor. Porém, as principais conclusões da investigação apontaram para a morte da criança a 3 de Maio, no apartamento

300 polícias estiveram nos primeiros dias à procura de Maddie McCann. APJ realça que muitos deles passaram várias semanas a dormir apenas algumas horas.

2000 diligências foram feitas pela Judiciária na procura de Madeleine. Foi solicitada a cooperação internacional em muitos momentos para despistar vários casos de falsos avistamentos.

CUSTOS ELEVADOS

A PJ não olhou a custos nesta investigação. Foram gastos milhões de euros na investigação do desaparecimento, de onde se realça os pagamentos elevados feitos aos laboratórios que trataram da recolha dos perfis genéticos.

NOTAS

LABORATÓRIO – EXAME DECISIVO

O relatório final acabou por ser decisivo para o previsível arquivamento do processo. Naquele documento, que o CM ontem revelou, foi admitida a hipótese de contaminação de ADN

ARQUIVADO – PGR ANUNCIOU

Depois de amanhã, a PGR irá emitir um comunicado onde deverá anunciar o arquivamento do processo. O caso ficará pendente no MP de Portimão, à espera de melhor prova

RECONSTITUIÇÃO – TRAVADA

A reconstituição da noite do desaparecimento era uma diligência tida como essencial no processo. Foi travada porque alguns dos amigos dos McCann não aceitaram regressar

ARMÁRIO – ODOR DETECTADO

Os cães ingleses assinalaram vestígios da morte de Maddie atrás do sofá e no armário do quarto. Na cama, os animais não os detectaram

CONTAMINAÇÃO – VESTÍGIOS

As autoridades não têm dúvidas de que a contaminação do local dificultou a investigação. Nas primeiras horas, dezenas de pessoas entraram no quarto

DEMITIDO – POR TELEFONE

Gonçalo Amaral foi alvo dos mais variados ataques e foi demitido por Alípio Ribeiro, por telefone, após prestar declarações a um jornal

CARTA – REEGISTO PEDÓFILO

Yvone, na carta enviada à polícia inglesa, pretendia que as autoridades verificassem se Dave tinha qualquer registo de actividades pedófilas

Eduardo Dâmaso / Tânia Laranjo

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